Hoje faço aniversário. Hoje, dia 02 de maio de 2016, completo 27 anos.
Há meses que quero escrever sobre a questão da idade, e nunca páro de fazer outras (tantas outras) coisas, para vir escrever. Farei isso hoje! - só pude terminar um dia depois -
Não foi apenas uma ou duas vezes que escutei as pessoas lamentarem a idade que têm. É comum ouvir as pessoas dizendo sobre como é ruim fazer aniversário, sobre como elas tem vergonha de ter mais de 30, 40, 50 anos. Algumas vezes até mesmo pessoas que estão fazendo pouco mais de 20 já reclamam da idade. Não foram apenas um ou dois textos que li na internet que falavam sobre "As insatisfeitas mulheres de 30 anos", "As frustrações das mulheres de 40", e outros textos que relacionavam alguma idade com algum sentimento ruim (percebo que a maioria desses textos falam de mulheres frustradas, e não realizadas e não sobre homens, o que me faz pensar sobre como até mesmo coisas que são universais - como envelhecer - são colocadas como mais dificeis para mulheres, e acabam se tornando mesmo. Para registrar: considero esses textos sem sentido sobre homens e mulheres, apenas fiz uma observação do que tenho visto por aí).
O feminismo apareceu na minha vida, e me libertou de muitas coisas que me incomodavam antes. Várias, como diversas insatisfações desnecessárias com meu corpo; várias caracteristicas da minha personalidade; vários pensamentos e comportamentos que eu reproduzia, que me traziam dificuldades ou sofrimentos, enfim... realmente foram libertações que tornaram a minha vida um pouco mais tranquila. O feminismo é, para mim, um caminho que trilho e sempre encontro mais uma libertação ali na frente. Às vezes são grandes, e me tiram de grandes sofirmentos, e outras são pequenas e do cotidiano, mas em conjunto acabam transformando minha vida em algo um pouco (ou muito) melhor.
Em meio a desconstruções de todos os tipos, essa isatisfação com a idade, que eu via de diversas formas vindo de diferentes pessoas, começou a saltar aos meus olhos. Algumas coisas a gente não tem como mudar - como a nossa idade - e tomei a decisão de que eu não iria sofrer ou me incomodar com alguma coisa que eu, definitivamente, não posso fazer nada para mudar. Se tem alguma coisa nessa vida que a gente tem, e não tem discussão, é a nossa idade. Podemos mentir, podemos fazer um documento falsificando a data de nascimento, podemos passar quilos de creme no rosto, milhares de cirurgias plásticas: a idade que a gente tem, é a idade que a gente tem, mesmo que a gente não aparente e mesmo que a gente não queira.
Eu compreendo que cada idade tem suas particularidades. Minha avó sempre comenta que a gente (eu e meus primos) não temos ideia de como, quando o corpo vai envelhecendo, aparecem dores que antes pareciam impossíveis, e sei que isso é um fato. A potência do corpo vai alterando com a idade sim, isso é outro fato. Há mais chances de termos determinadas doenças com determinadas idades, há mais chances de conseguirmos virar a noite e ir trabalhar com tranquilidade com determinadas idades, há mais chances de termos mais ou menos energia com determinadas idades, há mais chances de termos mais ou menos liberdade em determinados momentos da vida, há mais chances de a gente aprender com nossa própria experiência acumulada com determinadas idades (e aqui, não digo que necessariamente pessoas mais velhas são mais sábias, digo apenas que temos chances de aprender com nossa própria história de vida de diferentes formas, em diferentes momentos da vida). Mas invariavelmente há coisas boas e ruins em todas as idades.
Aprendi que com determinadas coisas, principalmente com aquelas que não podemos fazer nada, é melhor aceitar e sermos felizes com o que temos. Seguindo esse raciocínio, espero nunca sofrer pela idade que tenho. Reconheço que experiências mudam com o tempo, já posso reconhecer que minha vida mudou diversas vezes, em função da idade que tenho. Mas, isso é a vida. Viver é necessariamente ficar mais velho. Costumo dizer: "ou ficamos mais velhos, ou morremos". Não conheço outra alternativa, e por enquanto, tenho preferido ficar todo dia um pouco mais velha. As pessoas dizem que penso assim porque ainda sou jovem - e sei que sou jovem - mas estou aqui, atenta, para ver se estou apenas me iludindo, ainda em minha juventude. Muitas pessoas, mesmo bem mais novas do que eu já me demonstram que sofrem ao fazer aniversário, que estão desesperadas, porque "os 30 ou, ainda menos, os 20 anos estão chegando". Não estou dizendo que é fácil perder potencia, que é fácil passar a conviver com dores, com dificuldades. Mas, venho entendendo que negar as dificuldades não ajuda em nada, que talvez seja melhor aceitar, e encontrar formas de lidar, do que ficar negando, ficar tendo vergonha, ficar escondendo a idade que temos. O que posso fazer com a dor que sinto? Uma atividade física, melhorar alimentação? Aí estão as coisas que posso fazer. Mudar minha idade, é impossível, e não entendo porque eu deveria querer não ter a idade que tenho (isso pra mim, e para qualquer pessoa). A organização da nossa sociedade coloca a juventude em um lugar tão importante, tão maravilhoso, que considero que fazemos loucuras para continuarmos aparentando ser jovens. E, muitas vezes, de uma maneira que nos magoa, nos machuca e nos faz caminhar em direção contrária a tudo que somos verdadeiramente, até porque nada é perfeito, e a juventude tem tantos probemas quanto a vida adulta ou a velhice - problemas diferentes, mas todas as etapas da vida tem suas potencialidades positivas e negativas.
Outra reflexão que venho fazendo nos últimos meses, é como às vezes tendemos a ditar o tipo de relação que temos com as pessoas, com relação com a idade que elas tem. Todas as relações que eu tenho na minha vida: relações de trabalho, amorosas, familiares, de amizade... todas elas são de determinadas formas por infinitos motivos, e sei que a idade que eu tenho e a que as outras pessoas têm é um desses motivos. Mas, às vezes encontro pessoas que me parecem reduzir a relação que elas têm com outras, apenas no fator idade. É como se elas olhassem para pessoas com idades diferentes das que elas têm, e não fossem capazes de pensar nenhum tipo de relação diferente da que coloca a idade na frente de quaisquer outras caracteristicas, possibilidades, ou mesmo diferenças e limitações. Somos a idade que temos sim, mas somos muito mais do que isso.
Os textos que comentei anteriormente, costumam relacionar a insatisfação das "mulheres com 30 anos", ou 40, ou 50, com o fato de não terem alcançado determinados objetivos de vida. Falas como: "Ah, eu queria ter uma casa com essa idade, queria ter
filhos, queria ter um doutorado, queria ter me casado, queria ter viajado o mundo etc, etc,
etc" são comuns de se ouvir por aí. E, fico pensando que nem sempre esses são mesmo nossos sonhos... mas, mesmo quando são acho que a gente acaba por priorizar o que não conquistamos do que o que já conquistamos - aliás, o que mesmo é o conceito de conquista? O que será que estamos nos cobrando? Qual é essa vida perfeita de filme que achamos que vamos ter aos 30, aos 40 ou aos 50 anos?? Será que isso não é uma grande ilusão que compramos assim como compramos um refrigerante na padaria?
São muitas as reflexões que esse tema me trás. E, realmente penso muito sobre isso. Espero continuar conseguindo lidar com as transformações do meu corpo, da minha mente e do meu comportamento no mundo. Com as minhas mudanças de opiniões, de gostos, e das outras pessoas também. Espero continuar consguindo lidar com pessoas com idades muito diferentes da minha, sem colocar isso entre nós. Hoje, com 27 anos penso assim. E, espero que eu não sofra com a minha idade quando tiver 30, 45, ou 86 anos (sem saber até quando tempo ainda tenho aqui nessa Terra, coloquei números aleatórios, que podem ser possibilidades em minha vida, ou não).
terça-feira, 3 de maio de 2016
domingo, 17 de abril de 2016
Sobre a votação que ocorrerá hoje (17-04-2016) sobre o impeachment da Presidenta Dilma na Câmara dos Deputados
Tenho tantos sentimentos hoje... aqui escrevo o meu posicionamento, e sei que ele não é o único. Minha intenção é apenas compartilhar meus sentimentos e pensamentos, e me posicionar. Não quero convencer ninguém, como também não gostaria de tentar ser convencida do contrário. Cada um de nós tem sua posição nesse momento, e entendo que nesse momento, de acirramento dos ânimos, mais perdemos que ganhamos com essas nossas tentativas de convencer uns aos outros. Conversar, é sempre importante, mas a tentativa de convencimento hoje, não acho que seja o caminho. São posicionamentos no mundo tão diferentes, são formas tão diferentes de ver o mundo... Acho que a discussão política tem que ser constante, todos os dias. E é o que me proponho a fazer no meu cotidiano, com quem se dispõe a conversar comigo sobre esses assuntos.
Sinto uma imensa tristeza pelo ponto em que chegamos enquanto sociedade. Uma imensa tristeza por ouvir coisas, que eu considero como violência aos direitos de tanta gente. Tenho receio pelos direitos das minorias. Entendo que o estado deveria garantir alguns direitos básicos para a população, e principalmente para as populações mais desprotegidas pela vida que temos hoje em dia. Tenho receio pelas leis que passam nesse momento caótico, e ainda mais receio pelas leis que poderão passar, dependendo do resultado desse processo. Tanta gente vive num processo de exclusão\inclusão perversa nessa sociedade,e temo por uma progressiva intensificação dessa exclusão. Mas, fico verdadeiramente triste por isso ser decidido de forma indireta, por não ser uma votação direta da população, a que será mais afetada. Fico triste, por isso tudo ser uma disputa de um projeto de sociedade (é assim que eu vejo, sei que existem outras formas de ver). Penso que disputas de projetos de sociedade deveriam existir no momento de campanha eleitoral, e não nesse momento, em que dizem que o combate é contra a corrupção mas me parece, muito intensamente, que é um processo contra o governo que está aí, e o que ele representa. Assistindo a TV câmara, ontem a noite, percebi que o horror é pelo PT, pela esquerda, e não pela corrupção. A corrupção é uma característica da nossa sociedade. Ela tem que ser punida sim, sem dúvida, em todos os níveis. Mas, ao meu ver, não é disso que se trata a votação do dia de hoje. A votação do dia de hoje se trata, para mim e para muitas outras pessoas, da tentativa de tirar a esquerda do poder, personificada pela Dilma e pelo PT. Se os que clamam pelo impeachment hoje, tivessem chegado no poder nas últimas ou se chegassem nas próximas eleições, eu também ficaria temerosa pelos direitos das minorias, mas seria justo, assim funciona a democracia. Nesse momento, se configuraria uma nova oposição, e assim continuaríamos lutando pela garantia de direitos, principalmente para quem mais precisa. Mas, dessa forma, considero muito triste. Tenho imensas críticas ao governo de Dilma, mas entendo que ela estar lá representa tantas coisas... apesar de a esquerda no poder se parecer muito com a direita, ainda representa a esquerda e os direitos de algumas minorias (esse governo poderia ter feito muito mais pelas minorias, principalmente os indígenas, mas ainda assim representa as minorias, de alguma forma), e sim, faz diferença ser uma mulher lá. As piadas, muitas vezes, são machistas. Não me esqueço dos adesivos de carros com a imagem da Dilma, que a colocava em posições sexuais, algo tão profundamente triste, tão profundamente violento para todas as mulheres, e à ela... sou incapaz de imaginar o que é ser mulher nessa posição que ela está, no meio de um caos político, como o que temos hoje, e ainda ter que ouvir comentários e piadas misóginas.
Além de tanta tristeza, também fico triste de ver que muita coisa que passa na TV Câmara não tem intrerpretação para a LIBRAS, como a fala do Jean Willys do dia 15-04. Me sinto de mãos atadas, percebo que grande parte da Comunidade Surda acaba tendo acesso apenas aos discursos de uma parte da mídia, exatamente a que chega com mais facilidade em todos os lugares. E não só no processo de impeachment, mas em muitos assuntos, talvez quase todos... Postarei a fala da defesa feita por José Eduardo Cardozo, Advogado Geral da União. ASSISTAM, AMIGOS SURDOS, TEM INTREPRETAÇÃO PARA A LIBRAS, E TEM INFORMAÇÕES DIFERENTES DAS QUE MUITAS VEZES A MÍDIA DIVULGA.
https://www.youtube.com/watch?v=Yk1O4wxUk9w
sábado, 5 de março de 2016
Os discursos que correm na sociedade sobre a pessoa com deficiência, em épocas de Zika vírus e microcefalia
Tem muito tempo que não posto nada por aqui (a última vez foi em 2013). De 2013 até hoje, minha vida já mudou muitas vezes, e eu mudei ainda mais. Mas a vontade de escrever ainda aparece em determinados momentos. Tem um tema que tem me mobilizado, e gostaria de escrever sobre ele. Na verdade, gostaria mesmo de dedicar tempo real para fazer uma pesquisa mais sistemática sobre o assunto, mas não poderei fazer isso agora, então retomei esse espaço, onde me permito escrever (um pouco) mais livremente.
Acredito ser importante eu me posicionar antes de começar o assunto. Sou feminista, há vários anos me vejo sempre lendo e discutindo diversos assuntos sobre direito das mulheres, consequências do patriarcado em nossas vidas, e diversos temas muito importantes que o feminismo vem tratando (nos últimos tempos com maior visibilidade). E sou intérprete de Libras, então estou sempre em discussões sobre a pessoa Surda, e a pessoa com deficiência. Toda essa minha vivência sempre orienta meu olhar para as situações, e venho pensando sobre os discursos que têm corrido na sociedade sobre a pessoa com deficiência com esse aumento dos casos de microcefalia (aparentemente) causado pelo contágio da mulher no momento da gravidez pelo Zika vírus. Vou compartilhar o que venho pensando...
Estamos há alguns meses ouvindo sobre o aumento vertiginoso dos casos de Zica, doença causada pelo Zika Vírus, que é transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti. As autoridades no assunto, ainda estão pesquisando as consequências da doença quando uma mulher grávida é infectada, mas nos últimos meses, foi amplamente divulgada uma possível relação entre a contaminação da mãe com o vírus, e o nascimento do bebê com microcefalia (que é quando a criança nasce com o tamanho da cabeça significativamente menor do que o esperado para recém-nascidos, e consequentemente nasce sem o desenvolvimento esperado do cérebro).
Muitos discursos começaram a surgir sobre toda a situação. Uma grande ênfase na necessidade urgente de eliminar o mosquito transmissor, e muitos discursos sobre a doença, as possíveis consequências, a microcefalia. Venho acompanhando tudo isso, também me solidarizando com a situação que muitas pessoas têm passado desde que isso começou a aparecer no Brasil. Mas, após um determinado tempo, passei a sentir um estranhamento. E comecei a perceber que o incômodo se localizava nos discursos que estavam sendo divulgados sobre essas crianças com microcefalia.
Acredito que esse "surto de microcefalia" (como dizem muitas reportagens sobre o assunto) e o aumento alarmante dos casos de Zika, deixaram o país em um estado de desespero. Muitas reportagens foram produzidas sobre o assunto, as pessoas comentam sobre isso no cotidiano, e com isso discursos vão sendo formados e divulgados. Pessoas com microcefalia entram no grupo de pessoas denominadas de "pessoas com deficiência". E, venho percebido um completo desespero, até mesmo um horror diante do nascimento de crianças com microcefalia. Como psicóloga, sei que o nascimento de uma criança com deficiência é uma situação muito difícil para a família (qualquer que seja a configuração dessa família), sei que o nascimento de uma criança com deficiência em uma família pobre é algo ainda mais difícil, e que toda a dificuldade acaba sendo concentrada nas mulheres, essas mães que já costumam ter em si grande parte (senão todo) o peso de cuidar e educar uma criança (situação que fica muito mais aguda nos casos de mães negras e de periferia, que inclusive vêm sendo abandonadas pelos pais dos bebês, quando eles descobrem que a criança nasceu com microcefalia). Mas, também entendo que o nascimento de crianças com deficiência é algo que sempre ocorreu, e que sempre ocorrerá. Somos seres humanos, nascemos cada um de nós com nossas características, e alguns de nós nascem com características que fazem com que atualmente a gente os denomine como "pessoa com deficiência". Isso é uma situação com a qual nós enquanto sociedade precisamos estar preparados para lidar. Podemos ter filhos com deficiência, podemos passar a ser uma pessoa com deficiência ao longo da vida, e vamos nos relacionar com pessoas com deficiência em nossas vidas. Vejo que a disseminação desses discursos são um desfavor para toda a luta que o movimento das pessoas com deficiência vem travando, e com significativas conquistas. No caso de uma criança nascer com deficiência, a família deve se reorganizar diante das necessidades dessa criança, o que acontece com o nascimento de qualquer bebê. Apesar de um inicial momento de susto na família, é possível que adaptações sejam feitas, e essas crianças com deficiência cresçam com as potencialidades e dificuldades que cada uma tem.
Como feminista, sou a favor da descriminalização do aborto no Brasil. Vejo que a criminalização do aborto não impede que abortos aconteçam, na realidade, penaliza (mais uma vez) mulheres negras e pobres, já que mulheres brancas e de classe média conseguem pagar pelo procedimento (e é o que acontece). Muitas mulheres morrem por tentativas de aborto sem devido acompanhamento, e atualmente ainda são criminalizadas por isso (essa discussão é enorme e muito polêmica, gostaria apenas de pontuar meu posicionamento, pois é importante para o que vou comentar em seguida).
Diante desses discursos de desespero diante do nascimento de crianças com microcefalia, a discussão sobre a descriminalização do aborto voltou à tona. Vi alguns grupos feministas (e outros não feministas) defendendo a legalização do aborto em casos de microcefalia confirmada. Acho que estamos caindo em uma cilada. A luta pela descriminalização do aborto é uma luta antiga e importante do movimento feminista, mas acredito que um momento como esse não é o momento adequado para defendermos o aborto nos casos de microcefalia. Entendo o posicionamento dessas feministas, por saber e ver o quanto essas mulheres têm ficado sobrecarregadas e numa situação de abandono com uma criança com deficiência nos braços. Por isso acho que nós, feministas temos que lutar por um atendimento de qualidade à essas mulheres e seus filhos. A sociedade precisa compreender que essas crianças não são responsabilidade das mães, mas de toda a sociedade. A luta das feministas, na minha opinião, deveria se voltar para esse tipo de discussão. (Essa reflexão começou a ser feita - ao menos na mídia- recentemente, com a discussão de essas crianças receberem Benefício de Prestação Continuada, e como a rede pública de saúde está se organizando para atender esses bebês com a devida qualidade e frequência necessária). Existe grande variabilidade de grau e tipo nos casos de microcefalia. Cada criança tem determinado comprometimento no desenvolvimento físico e cognitivo, não é possível dizer que todas as crianças com microcefalia estão fadadas a uma vida sem desenvolvimento de suas potencialidades. E a microcefalia, apesar de não ter cura, tem tratamento, é possível estimular as crianças, para auxiliar no desenvolvimento físico e cognitivo, por exemplo, com sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Cada pessoa terá suas necessidades específicas, e cabe à toda a sociedade cuidar para que elas tenham acesso ao tratamento necessário. Assim como no caso de qualquer deficiência ou doença congênita ou desenvolvida ao longo da vida.
Trazer o debate da descriminalização-legalização do aborto apenas nesses casos, me parece equivocado, no sentido de abrir a porta para a eugenia (selecionar seres humanos que devem viver e outros que não devem, de acordo com alguma característica pré-determinada). Se lutamos para a legalização do aborto especificamente nesses casos, amanhã ou depois, poderemos estar discutindo a possibilidade de legalizar o aborto quando qualquer deficiência é detectada ainda na gestação. Gostaria de deixar claro que sou amplamente a favor da escolha da mulher, acredito que a mulher precisa ter a liberdade de decidir se vai ter aquela criança. Mas, na sociedade conservadora em que estamos, concordar com uma lei que permite o aborto nesses casos, me parece mais um retrocesso do que um avanço na pauta.
Momentos de grande mobilização diante de uma situação como essa são momentos em que muitas coisas são feitas sem o tempo necessário para uma reflexão mais profunda sobre as ações e as consequências, e é isso que estou percebendo agora. É importante debatermos com profundidade o que estamos defendendo, principalmente quando é a defesa de uma lei que ficará aí mesmo depois que a gente se for, e que pode ser utilizada de diversas formas, nem sempre como gostaríamos.
Gostaria de deixar claro os pontos principais da minha reflexão:
- Sou a favor da escolha da mulher em fazer ou não um aborto, e da necessidade de apoiá-la e oferecer procedimento e tratamento adequado nos casos em que for necessário;
- Estou profundamente preocupada com o aumento dos casos de crianças com microcefalia, e me solidarizo com todas as famílias que estão tendo que aprender a lidar com uma situação sabidamente difícil;
- Mas acredito que relacionar o aborto com a confirmação de uma deficiência é uma cilada para nós, feministas, que estamos lutando pelo direito das mulheres (e das minorias);
- Essa defesa acaba reforçando discursos preconceituosos sobre as pessoas com deficiência;
- Acho que devemos concentrar nossos esforços na necessidade de o Estado e a sociedade como um todo dividir com essas mulheres as responsabilidades que surgem quando uma criança com deficiência nasce, e principalmente em uma situação em que isso está acontecendo um um número grande de famílias e, de evitar que mais casos aconteçam.
Notícias que li, e sites que acessei para escrever o texto:
(além de muitas outras que venho lendo nos últimos meses, e não consigo recuperar o link:)
https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus_Zika
https://pt.wikipedia.org/wiki/Microcefalia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugenia
http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2016/02/zika-virus-para-especialistas-autonomia-da-mulher-sobre-aborto-e-necessaria-durante-epidemia-6364.html
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-hora-do-zika-e-a-hora-de-falar-de-aborto
http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,homens-abandonam-maes-de-bebes-com-microcefalia-em-pe,10000014877
http://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2016/03/bebes-com-microcefalia-comecam-ser-atendidos-no-interior-de-pe.html
http://www.tuasaude.com/tratamento-para-microcefalia/
Acredito ser importante eu me posicionar antes de começar o assunto. Sou feminista, há vários anos me vejo sempre lendo e discutindo diversos assuntos sobre direito das mulheres, consequências do patriarcado em nossas vidas, e diversos temas muito importantes que o feminismo vem tratando (nos últimos tempos com maior visibilidade). E sou intérprete de Libras, então estou sempre em discussões sobre a pessoa Surda, e a pessoa com deficiência. Toda essa minha vivência sempre orienta meu olhar para as situações, e venho pensando sobre os discursos que têm corrido na sociedade sobre a pessoa com deficiência com esse aumento dos casos de microcefalia (aparentemente) causado pelo contágio da mulher no momento da gravidez pelo Zika vírus. Vou compartilhar o que venho pensando...
Estamos há alguns meses ouvindo sobre o aumento vertiginoso dos casos de Zica, doença causada pelo Zika Vírus, que é transmitido pela picada do mosquito Aedes aegypti. As autoridades no assunto, ainda estão pesquisando as consequências da doença quando uma mulher grávida é infectada, mas nos últimos meses, foi amplamente divulgada uma possível relação entre a contaminação da mãe com o vírus, e o nascimento do bebê com microcefalia (que é quando a criança nasce com o tamanho da cabeça significativamente menor do que o esperado para recém-nascidos, e consequentemente nasce sem o desenvolvimento esperado do cérebro).
Muitos discursos começaram a surgir sobre toda a situação. Uma grande ênfase na necessidade urgente de eliminar o mosquito transmissor, e muitos discursos sobre a doença, as possíveis consequências, a microcefalia. Venho acompanhando tudo isso, também me solidarizando com a situação que muitas pessoas têm passado desde que isso começou a aparecer no Brasil. Mas, após um determinado tempo, passei a sentir um estranhamento. E comecei a perceber que o incômodo se localizava nos discursos que estavam sendo divulgados sobre essas crianças com microcefalia.
Acredito que esse "surto de microcefalia" (como dizem muitas reportagens sobre o assunto) e o aumento alarmante dos casos de Zika, deixaram o país em um estado de desespero. Muitas reportagens foram produzidas sobre o assunto, as pessoas comentam sobre isso no cotidiano, e com isso discursos vão sendo formados e divulgados. Pessoas com microcefalia entram no grupo de pessoas denominadas de "pessoas com deficiência". E, venho percebido um completo desespero, até mesmo um horror diante do nascimento de crianças com microcefalia. Como psicóloga, sei que o nascimento de uma criança com deficiência é uma situação muito difícil para a família (qualquer que seja a configuração dessa família), sei que o nascimento de uma criança com deficiência em uma família pobre é algo ainda mais difícil, e que toda a dificuldade acaba sendo concentrada nas mulheres, essas mães que já costumam ter em si grande parte (senão todo) o peso de cuidar e educar uma criança (situação que fica muito mais aguda nos casos de mães negras e de periferia, que inclusive vêm sendo abandonadas pelos pais dos bebês, quando eles descobrem que a criança nasceu com microcefalia). Mas, também entendo que o nascimento de crianças com deficiência é algo que sempre ocorreu, e que sempre ocorrerá. Somos seres humanos, nascemos cada um de nós com nossas características, e alguns de nós nascem com características que fazem com que atualmente a gente os denomine como "pessoa com deficiência". Isso é uma situação com a qual nós enquanto sociedade precisamos estar preparados para lidar. Podemos ter filhos com deficiência, podemos passar a ser uma pessoa com deficiência ao longo da vida, e vamos nos relacionar com pessoas com deficiência em nossas vidas. Vejo que a disseminação desses discursos são um desfavor para toda a luta que o movimento das pessoas com deficiência vem travando, e com significativas conquistas. No caso de uma criança nascer com deficiência, a família deve se reorganizar diante das necessidades dessa criança, o que acontece com o nascimento de qualquer bebê. Apesar de um inicial momento de susto na família, é possível que adaptações sejam feitas, e essas crianças com deficiência cresçam com as potencialidades e dificuldades que cada uma tem.
Como feminista, sou a favor da descriminalização do aborto no Brasil. Vejo que a criminalização do aborto não impede que abortos aconteçam, na realidade, penaliza (mais uma vez) mulheres negras e pobres, já que mulheres brancas e de classe média conseguem pagar pelo procedimento (e é o que acontece). Muitas mulheres morrem por tentativas de aborto sem devido acompanhamento, e atualmente ainda são criminalizadas por isso (essa discussão é enorme e muito polêmica, gostaria apenas de pontuar meu posicionamento, pois é importante para o que vou comentar em seguida).
Diante desses discursos de desespero diante do nascimento de crianças com microcefalia, a discussão sobre a descriminalização do aborto voltou à tona. Vi alguns grupos feministas (e outros não feministas) defendendo a legalização do aborto em casos de microcefalia confirmada. Acho que estamos caindo em uma cilada. A luta pela descriminalização do aborto é uma luta antiga e importante do movimento feminista, mas acredito que um momento como esse não é o momento adequado para defendermos o aborto nos casos de microcefalia. Entendo o posicionamento dessas feministas, por saber e ver o quanto essas mulheres têm ficado sobrecarregadas e numa situação de abandono com uma criança com deficiência nos braços. Por isso acho que nós, feministas temos que lutar por um atendimento de qualidade à essas mulheres e seus filhos. A sociedade precisa compreender que essas crianças não são responsabilidade das mães, mas de toda a sociedade. A luta das feministas, na minha opinião, deveria se voltar para esse tipo de discussão. (Essa reflexão começou a ser feita - ao menos na mídia- recentemente, com a discussão de essas crianças receberem Benefício de Prestação Continuada, e como a rede pública de saúde está se organizando para atender esses bebês com a devida qualidade e frequência necessária). Existe grande variabilidade de grau e tipo nos casos de microcefalia. Cada criança tem determinado comprometimento no desenvolvimento físico e cognitivo, não é possível dizer que todas as crianças com microcefalia estão fadadas a uma vida sem desenvolvimento de suas potencialidades. E a microcefalia, apesar de não ter cura, tem tratamento, é possível estimular as crianças, para auxiliar no desenvolvimento físico e cognitivo, por exemplo, com sessões de fisioterapia, fonoaudiologia e terapia ocupacional. Cada pessoa terá suas necessidades específicas, e cabe à toda a sociedade cuidar para que elas tenham acesso ao tratamento necessário. Assim como no caso de qualquer deficiência ou doença congênita ou desenvolvida ao longo da vida.
Trazer o debate da descriminalização-legalização do aborto apenas nesses casos, me parece equivocado, no sentido de abrir a porta para a eugenia (selecionar seres humanos que devem viver e outros que não devem, de acordo com alguma característica pré-determinada). Se lutamos para a legalização do aborto especificamente nesses casos, amanhã ou depois, poderemos estar discutindo a possibilidade de legalizar o aborto quando qualquer deficiência é detectada ainda na gestação. Gostaria de deixar claro que sou amplamente a favor da escolha da mulher, acredito que a mulher precisa ter a liberdade de decidir se vai ter aquela criança. Mas, na sociedade conservadora em que estamos, concordar com uma lei que permite o aborto nesses casos, me parece mais um retrocesso do que um avanço na pauta.
Momentos de grande mobilização diante de uma situação como essa são momentos em que muitas coisas são feitas sem o tempo necessário para uma reflexão mais profunda sobre as ações e as consequências, e é isso que estou percebendo agora. É importante debatermos com profundidade o que estamos defendendo, principalmente quando é a defesa de uma lei que ficará aí mesmo depois que a gente se for, e que pode ser utilizada de diversas formas, nem sempre como gostaríamos.
Gostaria de deixar claro os pontos principais da minha reflexão:
- Sou a favor da escolha da mulher em fazer ou não um aborto, e da necessidade de apoiá-la e oferecer procedimento e tratamento adequado nos casos em que for necessário;
- Estou profundamente preocupada com o aumento dos casos de crianças com microcefalia, e me solidarizo com todas as famílias que estão tendo que aprender a lidar com uma situação sabidamente difícil;
- Mas acredito que relacionar o aborto com a confirmação de uma deficiência é uma cilada para nós, feministas, que estamos lutando pelo direito das mulheres (e das minorias);
- Essa defesa acaba reforçando discursos preconceituosos sobre as pessoas com deficiência;
- Acho que devemos concentrar nossos esforços na necessidade de o Estado e a sociedade como um todo dividir com essas mulheres as responsabilidades que surgem quando uma criança com deficiência nasce, e principalmente em uma situação em que isso está acontecendo um um número grande de famílias e, de evitar que mais casos aconteçam.
Notícias que li, e sites que acessei para escrever o texto:
(além de muitas outras que venho lendo nos últimos meses, e não consigo recuperar o link:)
https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%ADrus_Zika
https://pt.wikipedia.org/wiki/Microcefalia
https://pt.wikipedia.org/wiki/Eugenia
http://www.redebrasilatual.com.br/saude/2016/02/zika-virus-para-especialistas-autonomia-da-mulher-sobre-aborto-e-necessaria-durante-epidemia-6364.html
http://www.cartacapital.com.br/sociedade/a-hora-do-zika-e-a-hora-de-falar-de-aborto
http://saude.estadao.com.br/noticias/geral,homens-abandonam-maes-de-bebes-com-microcefalia-em-pe,10000014877
http://g1.globo.com/pe/caruaru-regiao/noticia/2016/03/bebes-com-microcefalia-comecam-ser-atendidos-no-interior-de-pe.html
http://www.tuasaude.com/tratamento-para-microcefalia/
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